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Como a pandemia pode acelerar as mudanças da mobilidade urbana no Brasil

Com o aparecimento da Covid-19, esse assunto volta aos holofotes, junto com o contexto histórico, as complexidades, dilemas e as soluções que envolvem essa temática.

A mobilidade urbana é uma velha conhecida do povo brasileiro, sendo debatida por diversas vezes na esfera pública, com desafios que devem ser superados, por exemplo, criando uma rede de transporte eficaz ou melhorando a questão da fluidez do trânsito.

Com a pandemia da Covid-19, vieram novos obstáculos para serem vencidos, e o principal seria conceber um sistema que se mostre seguro o bastante para garantir a saúde dos usuários.

A Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) é uma entidade privada, sem fins lucrativos, fundada há 43 anos, que tem como bandeiras a defesa permanente do transporte público de excelência, mobilidade urbana sustentável e cidades com qualidade de vida.

Luiz Carlos Néspoli, superintendente da ANTP, destaca duas adversidades principais que a falta de planejamento impacta sobre este tema no Brasil. “A primeira seria a concentração dos empregos nas áreas centrais dos municípios e as moradias em regiões mais distantes, isso criou um movimento concentrado no sentido bairro-centro e vice-versa, nos horários de pico, gerador de ineficiência no sistema de transporte público. E a segunda, seria o espraiamento da cidade, por meio da inexistência de uma política que pudesse favorecer a ocupação de áreas vazias mais próximas do centro e dos principais eixos viários”.

“Essas causas elevaram o custo do transporte público, pressionando a tarifa para cima. Um dos indicadores de eficiência é a quantidade de pessoas transportadas por unidade de quilômetro rodado (IPK). Quanto maior este índice, menor a tarifa para a população. Com atividades melhor distribuídas na cidade, corredores mais adensados e com atratividade, a renovação (embarque e desembarque dos ônibus) aumenta o número de passageiros transportados e amplia o IPK”, comenta o superintendente.

O Brasil é um país que sempre incentivou o uso do automóvel, isso ocorreu principalmente nos anos de 1950 e também na última década – com a redução no preço dos veículos via diminuição de impostos e o alargamento do crédito – que saiu de uma frota de 36 milhões em 2003, para 100 milhões em 2019. Néspoli pontua que essa escolha pode ter contribuído para essas contrariedades atuais, “esse incentivo se manifesta em vários aspectos, por exemplo, no investimento em infraestrutura. Segundo o Sistema de Informações da Mobilidade Urbana, que reúne dados de 533 cidades com mais de 60 mil habitantes, o total investido pelos governos em infraestrutura para o transporte individual, foi cerca de 4 vezes mais do que para o transporte público”. Os dados estão contidos no último relatório produzido, em 2017.

E sob os pontos de vista social e econômico, as externalidades negativas são os aspectos mais significativos do transporte individual: congestionamento, acidentes e mortes no trânsito, grande gasto de energia, poluição ambiental e brutal consumo de espaço viário das cidades.

Rafael Marinho, 30, motorista de aplicativo há 4 anos e morador da cidade de Betim-MG, relata que uma das dificuldades enfrentadas no dia a dia, por ele e por outros profissionais, “é o trânsito caótico com um número excessivo de automóveis, vias afuniladas, ruas esburacadas e a sinalização precária”.

Na visão dele, mudanças nas ações relacionadas ao tema precisam ser pensadas e idealizadas. “Nesta pandemia, com a quarentena, o clima ficou bem melhor, com menos poluição nas cidades, e houve também uma diminuição de carros nas ruas, ocasionando um trânsito mais favorável aos seus usuários”.

Por isso, o superintendente da ANTP afirma a importância do transporte coletivo: “Primeiro, ele é universal, atende a qualquer pessoa, está presente em todos os dias e horários. Segundo, ele transporta muito mais gente por metro quadrado de via pública. Se incentivado, e com mais qualidade, pode-se ampliar o uso e reduzir as externalidades negativas do transporte individual”.

Transporte na pandemia

Há muita incerteza sobre qual será o comportamento da população no pós-coronavírus. Sinais indicam uma migração de parte das atividades em escritórios para home office e, como também já havia antes da pandemia, um fluxo de migração para o transporte por aplicativo, visto ainda o receio de utilizar um coletivo urbano.

Em algumas cidades brasileiras, já há o uso de aplicativos de ônibus, como exemplo a Buser, UBus e a CityBus. O superintendente pontua que “de fato, há mercado para este tipo de transporte. Mas, tem que ser equacionado dentro de uma lógica de comércio de viagens coletivas como um todo, senão se torna injusta. O transporte público por ônibus tradicional é restringido, por contrato, a itinerários rígidos, horários inflexíveis e tarifas fixadas pelo poder público”.

Todos estes fatos somados podem reduzir ainda mais a demanda, e Néspoli explica o resultado disso na fixação da tarifa: “Como o preço público é fixado por um rateio do custo pelo número de passageiros transportados, é previsível o impacto no preço para quem permanecer no transporte público. É por isso que estamos discutindo, neste momento, outra forma de garantia do funcionamento deste modo de transporte, necessário, essencial e um direito da população, em especial para as camadas de menor renda”.

E acrescenta que “não é possível continuar imaginando que o transporte público no Brasil, diferentemente das maiores cidades do mundo, seja sustentado economicamente apenas pelos seus passageiros. O que é um absurdo, pois toda a sociedade – indústria e o comércio de modo geral, instituições, áreas da Saúde, áreas da Educação, e os próprios serviços destinados ao lazer da população – são beneficiários da existência do transporte público. Por isso, estamos batendo na tecla da necessidade de recursos não tarifários, em que toda a sociedade possa contribuir e não apenas o passageiro transportado”.

Com a pandemia, vieram questionamentos relacionados à saúde. O superintendente da ANTP esclarece que “enquanto as atividades forem parecidas com as atuais, as concentrações de pessoas continuarão a ocorrer. Ampliar a oferta de transporte para se evitar menores lotações requer custos adicionais e, portanto, aumentos tarifários. Essa forma de organização dos horários das atividades na cidade aumenta o custo social, já que o transporte público é dimensionado para as horas de maior demanda e o sistema viário também”.

Veja a matéria completa aqui.

Fonte: Revista Comtempo

 

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