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Gestão para enfrentar a crise

27/04/2020

Em entrevista à Agência e à Revista CNT Transporte Atual, Adriano Correia, sócio e líder de Transporte e Logística da PwC, empresa que, em todo o mundo, presta serviços de auditoria e consultoria de negócios, fala sobre como as empresas, especialmente do setor de transporte, podem conduzir as ações de gestão de crise. Para ele, não é o tamanho das organizações que será determinante para a sobrevivência, mas, sim, a capacidade de se tomarem decisões com agilidade. Veja, abaixo, alguns trechos da entrevista. Leia a íntegra na próxima edição da Revista CNT Transporte Atual (edição 291 - abril de 2020).

Em que a crise causada pelo novo coronavírus - e seus impactos sobre as organizações - se diferencia de outras que já enfrentamos?

A principal característica é que existem muitas incertezas relacionadas à covid-19. Hoje, médicos e cientistas não sabem exatamente como lidar com ela. E isso tem se refletido bastante na economia e nas operações das empresas. Essa dificuldade de se estabelecerem quais fatos têm atrapalhado a tomada de decisões tanto por parte do governo quanto por parte das empresas. Não sabemos quando as pessoas poderão sair de casa; se, de fato, a curva de contágio vai ser achatada ou não; se há reincidência ou não; se vai ter lockdown. Isso tudo está sendo discutido, e as empresas têm buscado traçar cenários diferentes. Mas, de fato, hoje não se tem muita segurança sobre o que vai acontecer nos próximos meses.

Diante dessas características particulares, é diferente fazer gestão de crise neste momento, nas organizações? Quais são as práticas que estão sendo recomendadas para que as empresas gerenciem este momento de modo a tomar decisões que garantam sua sobrevivência?

É fundamental, neste cenário, as empresas terem uma gestão de crise adequada. Este momento é o mais próximo do que nós já chegamos de uma guerra e deve ser tratado como tal. Temos recomendado que as empresas montem um comitê de crise, com equipes multidisciplinares. Muitas pessoas estão trabalhando remotamente, mas temos sugerido que as pessoas trabalhem cada vez mais próximas – usando a tecnologia, obviamente – porque decisões precisam ser tomadas de forma rápida. Agilidade é superimportante e pode ser um divisor de águas entre a sobrevivência da empresa ou não. Então, é necessário que estejam muito alinhadas em termos de objetivos e saibam quais são os problemas que enfrentarão. E é importante que esse comitê seja implementado e trabalhe sob a supervisão de pessoas mais sênior, que tenham capacidade de tomar decisões e levar para a alta administração sugestões de planos estratégicos para que a empresa possa reagir de forma rápida. Nesse contexto, outro aspecto muito relevante é a necessidade de identificar o que é informação verdadeira e confiável, porque estamos recebendo muitas informações. Então, é importante que esse time consiga delinear os fatos para que os executivos possam tomar decisões baseadas neles. Somente assim, se consegue ter um plano para reagir à crise. Outra questão super-relevante nesse contexto de gestão de crise é a definição de um plano de comunicação adequado. É muito importante que as empresas se comuniquem bem com seus colaboradores e com as diversas partes interessadas: governo, reguladores, investidores, clientes, fornecedores. As informações devem chegar, de forma consistente e coerente, para todos. E aí há um elemento importante: temos percebido, na comunicação de algumas empresas com o mercado, que nem sempre as informações são autênticas. Isso pode ser um erro estratégico importante, porque, neste momento altamente sensível, se as empresas não se colocarem de forma verdadeira, isso poderá afetar significativamente a credibilidade dessas organizações.

O setor de transporte tem sido duramente afetado, particularmente o de passageiros. Como analisa este momento para o transporte brasileiro e de que forma será possível garantir as operações desse serviço que é essencial para o Brasil?

As empresas de transporte são muito afetadas. Algumas de carga talvez sejam um pouco menos, mas quem lida com transporte de passageiros e de alguns bens de consumo está sofrendo de forma duríssima. É uma pena, porque o segmento de transporte como um todo foi muito prejudicado pela crise econômica que atingiu o Brasil a partir de 2015, e a gente percebia uma retomada de operações e de investimentos. E de repente, a gente não sabe se vai retomar os níveis de anos anteriores ou se vai conseguir passar por uma turbulência rápida e retomar as atividades. Então, este é um momento de altíssima complexidade para o setor, e não apenas pelo cenário econômico adverso mas também pelas incertezas. As empresas precisam, de fato, pensar em como se reinventarem e de uma forma bastante responsável. Além disso, aumenta a complexidade das operações. É necessário que elas ocorram de forma segura, evitando, por exemplo, que as pessoas estejam mais expostas ao risco de contaminação, sejam empregados, sejam clientes. Por isso, reforço que o tratamento da questão da segurança e a conscientização são muito importantes.

Dá para falar em oportunidades nessa crise? E como isso pode ocorrer no transporte?

Sem dúvidas, há oportunidades. E estamos percebendo isso em diversas empresas. Todo e qualquer empresário, hoje, está fazendo uma reflexão sobre seu negócio, o tipo de cliente que atende, a forma como opera. E a sociedade, de uma forma geral, tem sido forçada a trabalhar e a interagir de uma forma diferente. A gente vai ter um novo ‘normal’ a partir dessa crise, e as empresas vão precisar entender esse novo ‘normal’, essa nova configuração de sociedade para saber como operar. Empresas que trabalham com comércio eletrônico, por exemplo, precisarão pensar em como atuar. Há um espaço grande para melhorar a eficiência e a confiabilidade das entregas, dos novos produtos e serviços. Também devem surgir oportunidades relacionadas ao agronegócio, que, por ser mais resiliente, deve se manter forte após a crise. As empresas precisarão pensar em como aproveitar as oportunidades com essa nova configuração.

Qual o desafio de líderes e executivos para a gestão dessa crise?

A confiança de muita gente está abalada. Existem medos, e já começam a aparecer casos de pessoas mais próximas de você que foram diagnosticadas com o novo coronavírus, talvez até algum caso de falecimento, e isso abala a confiança. Então, é muito importante que os executivos tenham a cabeça no lugar, não se deixem abalar por essas adversidades e consigam, de fato, ter frieza para tomar decisões e motivar o time. É importante não deixar que o problema seja maior do que, de fato, é. Executivos precisam exercer seu papel de liderança de forma plena, não apenas para liderar pessoas mas também a comunidade em volta, fornecedores, clientes, para que a gente saia disso o mais rápido possível. Além disso, a cooperação, neste momento, é fundamental. É necessário cooperar com todo mundo e procurar não se aproveitar eventualmente de uma fraqueza. Se não tivermos consciência de cooperação e de ajudar, de uma forma geral, a comunidade de negócio, não conseguiremos sair rapidamente disso.

Fonte: CNT

 

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