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Mercedes transforma ônibus em unidades móveis de vacinação

02/06/2021

O alemão Karl Deppen, presidente da Mercedes-Benz na América Latina, pouco sabia sobre o termo “grotas”, nome dado aos assentamentos que se espalham em cavidades das encostas de morros em cidades como Maceió. Já o cearense Julio Cals, presidente da Cruz Vermelha no Brasil, nunca havia estado numa fábrica de caminhões e ônibus. Mas uma causa nobre uniu ontem, na sede da Mercedes, em São Bernardo do Campo (SP), esses dois especialistas em áreas tão distintas. Dali saíram dois ônibus especiais, transformados em unidades móveis para ajudar na vacinação da população que vive em áreas de vulnerabilidade.

O projeto, resultado da doação de € 170 milhões, pelo Ministério de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha e mais € 100 milhões da própria Mercedes, inclui uma van para ajudar no deslocamento da equipe da Cruz Vermelha que, como diz Cals, levará doses de “alegria” a quem mora numa ribanceira ou área ribeirinha.

Se conseguir uma vacina contra a covid-19, hoje, já é uma aventura para quem pode se deslocar até um posto em “drive thru”, no conforto do carro, o que dirão os mais de 300 mil habitantes das grotas de Maceió? Quase um terço da população dessa cidade mora onde a vida já oferecia obstáculos muito antes de a pandemia chegar.

“Muitos não têm dinheiro sequer para comprar alimento; fica difícil pegar condução para chegar ao posto de saúde”, destaca Cals. A boa notícia é que a capital alagoana será o primeiro ponto de parada do ônibus que atenderá o Nordeste. Dali, o veículo seguirá para Natal, Fortaleza e São Luís, num percurso estimado em 4,35 mil km. Total de 2,5 mil pessoas serão atendidas por mês nessa unidade.

O outro ônibus seguirá para o Norte, passando pelo Rio, Belo Horizonte, Campo Grande, Brasília, Cuiabá, Porto Velho e Rio Branco, num total de 6,5 mil km e 1,5 mil pessoas vacinadas por mês. Total de 36 voluntários da Cruz Vermelha acompanharão as viagens para ajudar a organizar o programa.

A vacinação será feita dentro da campanha de imunização do Ministério da Saúde e prevê o envolvimento de prefeituras para ceder os técnicos para a aplicação das doses e também motoristas, que se revezarão, em cada cidade. O combustível inicial fica por conta da Mercedes e o que for usado nos deslocamentos internos será fornecido pelos governos municipais.

A transformação dos veículos incluiu sistema de conversão de luz solar em energia elétrica, para a refrigeração das câmaras que armazenarão as vacinas.

Esse mutirão de solidariedade é a resposta à pergunta que Deppen se fez quando o vírus da covid-19 começou a se espalhar: “Como podemos ajudar?” Fazia pouco mais de quatro meses que pandemia havia chegado ao Brasil quando o executivo assumiu o cargo que ocupa, em julho de 2020.

Sua carreira de mais de 25 anos na Mercedes e experiência internacional em países como EUA, Turquia, Japão e China o credenciavam para o comando da maior fabricante de caminhões e ônibus na América Latina. “Mas não entendíamos nada de vacinação”, conta.

O suporte financeiro da Alemanha e apoio da Câmara de Comércio Brasil-Alemanha indicaram, diz Deppen, como a multinacional poderia participar de uma ação social para ajudar a comunidade.

A ameaça da disseminação de novas variantes ao mesmo tempo em que o ritmo de vacinação não é o mesmo em todos os países preocupa Deppen. “A situação é muito séria e os progressos na luta contra o vírus são diferentes em cada lugar. Achamos que o melhor é lutar onde você faz a diferença”, diz.

O programa não se encerra no imediatismo da pandemia. Vai durar três anos. Os veículos poderão ser usados para a imunização contra outras doenças e até mesmo como laboratórios para exames de rotina, como mamografia.

Para Cals, o momento oferece uma grande oportunidade para fortalecer parcerias. “A pandemia revelou um abismo social e, ao mesmo tempo, mostrou que a doença não distingue classes sociais. Se não aprendermos agora não aprenderemos nunca”, diz.

Maceió, primeira parada dos ônibus da vacinação, tem mais de 70 grotas. Cada uma tem um nome; alguns pitorescos. Uma delas é chamada oficialmente de Grota da Caverna. Mas a comunidade decidiu chamá-la de Grota da Alegria. Talvez seja um sinal de que a imunização por ali vai chegar mais rápido do que se espera.

Fonte: Valor Econômico via ANTP

 

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